
Por David Fialkow Sobrinho – Mestre em economia
Nos debates sobre redução da jornada, pouco se fala no tema da produtividade. Com a introdução de tecnologia e métodos mais modernos, um trabalhador passa a produzir mais unidades no mesmo tempo de trabalho. Isto faz o trabalhador entregar maior rendimento ao empresário, enquanto seu salário permanece o mesmo.
Entretanto, os avanços na tecnologia, nos processos de produção e nos métodos de trabalho não se devem apenas ao empresário que os implanta. Eles são fruto de uma infi nidade de cientistas e técnicos fazendo pesquisas, muitas vezes falhando até encontrar algo útil. Nisto, são investidos recursos do governo, de empresas e de institutos, etc. E também vêm dos trabalhadores sugerindo maneiras de melhorar a efi ciência. Assim, não seria justo que o empresário, isoladamente, se apropriasse de todos os ganhos destas conquistas.
Estes ganhos deveriam benefi ciar a sociedade com produtos melhores e mais baratos, bem como os trabalhadores com salários mais elevados e jornadas de trabalho menores. Por isso, nas negociações salariais do passado, havia dois aspectos fundamentais. Considerava-se um reajuste para repor a infl ação e um aumento referente à elevação da produtividade.
O tema da produtividade desapareceu das negociações nos anos 90, fruto dos retrocessos neoliberais, fortemente antitrabalhistas e antissociais. Resultado: arrocho dos salários. Faz quase 40 anos que a Constituição de 1988 reduziu a jornada de 48 para 44 horas semanais. De lá para cá, o país não quebrou, a produtividade deu saltos. Só de 1992 a 1996, a produtividade cresceu 59,38% no Material de Transporte (automóveis, ônibus e caminhões), 47,13% no Mecânico, 76,28% no Material Elétrico e de Comunicações e 29,3% na Metalurgia (IBGE PIM DG, PIM PF, 1999).
Em paralelo com a mecatrônica, vieram o Just in Time, o Kanban e a Reengenharia. O artigo “Bônus sem ônus? Efeitos do kaizen sobre as empresas brasileiras” (2020) demonstra que ele aumentou a produtividade do trabalho (BNDES). Mais adiante, a Indústria 4.0, com máquinas inteligentes e robôs, alguns dos quais em nossas terras.
Hoje, a revolução digital e a IA iniciam novo ciclo tecnológico no Brasil. E o que receberam a sociedade e os trabalhadores destes ganhos? Acabaram retidos nas mãos de poucos. A redução de jornada seria tão somente uma parte disto. Além disso, a produtividade vai continuar a crescer. E é preciso vida após o trabalho.